
Roy, um homem com um sorriso eterno e com o espírito de um ser do
Renascimento Moderno, a sua paixão por línguas, por cultura, pela
espécie humana, pelas viagens, pela América Latina, pelo seu pais, o
Equador e pela cidade onde vive, Cuenca. Disfrutei do seu
fantástico sentido de humor, das suas historias, da sua amizade, da
sua companhia nos quatro dias que se transformaram em três semanas que
passei em Cuenca, e naquela noite, da sua fantástica energia e ritmo
latino!

Cláudia, a minha amiga de cabelos longos e negros e de olhos que
brilham como dois sois. Os nossos passeios, as nossas conversas, as
nossas gargalhadas e aquela noite em que dançamos sem parar com a
roupa encharcada, comprovando que a latinidade dos dois continentes se
expressa de igual forma: gosto pela musica e pela dança.Os seus
sonhos de viagem pela Europa neste verão serão seguramente
concretizados, assim como o nosso reencontro em terras britânicas. Um
dia esta mulher arranjara os dentes das gentes equatorianas, mas
nestes próximos meses terá que estudar bastante para cumprir o acordo
que fez com o pai e passar todas as cadeiras, conseguindo em troca o
bilhete para o velho continente.

Gael, um ciclo turista francês que com o seu companheiro de viagem
Yves, percorreu a América do Sul durante dois anos fazendo um
intercâmbio de jogos infantis franceses com jogos infantis da América do sul,
visitando escolas e orfanatos. O seu cabelo a Robinson Crusoe e a barba
por fazer, são marcas distintas desta tribo que formam os ciclonautas
masculinos do planeta. E nessa noite os seus músculos moveram-se não
ao ritmo dos pedais da sua viajada bicicleta mas ao som dos ritmos da
musica. Gael já regressou a Franca, e tento imaginar como será a vida
dele agora que tem que adaptar-se a sua antiga realidade e
ajustar-se ao facto de já não ter de acordar e pedalar pelas montanhas
andinas?

Geoff, um viajante improvável, tímido e reservado com 24 anos. E
difícil imaginar que esteja a percorrer a América Latina em mota
gastando as poupanças que tinha para abrir um negocio e indo contra a
desaprovação dos pais, sobretudo quando andou desaparecido na
travessia entre o Panamá e a Colômbia. Mas deixou as inibicoes de
lado nessa noite dançando envolvido pelos corpos da multidão presente
e partilhando o seu sorriso.
Magda, uma estudante Colombiana, que passava as suas ferias
visitando os países vizinhos e que passou uma temporada no Equador
antes de ir ao Peru visitar Machu Pichu. Optou por ser vegetariana
pela defesa dos direitos dos animais, e oriunda da capital da salsa -
Cali, mas ali bailou indiferente aos estilos musicais, espalhando
alegria e partilhando as suas experiências de viagem.
Jeff, canadiano, também a percorrer o continente americano sobre duas
rodas, aficionado ao heavy metal juntou-se ao grupo e dançou
sacudindo a poeira dos muitos kilometros de estradas já pedaladas.
Agora eo nosso companheiro de viagem.
Quando saímos do POP, o pequeno templo a dança e a alegria, as nossas
roupas estavam encharcadas e os nossos peitos cheios de alegria.
Talvez alguns de nos não nos voltemos a ver, mas aquela noite havia
sido um momento tão especial que ficara marcado nas nossas memorias
como uma pintura num mural, sobrevivendo a passagem do tempo e
fazendo-nos a razão pela qual viajamos - pela amizade!

A espera
Depois de atravessar as montanhas numa nuvem constante que não nos
deixava ver nada a nossa volta, impedindo-nos de desfrutar a
recompensa das árduas subidas, chegamos a Cuenca. Cuenca a cidade que
reflectia o sol nas suas paredes coloridas de colonialidade dos tempos
idos. A cidade que a custa de ser património mundial vai preservando a
sua herança arquitectónica e sendo um oásis de urbanidade no meio das
montanhas andinas. Um centro de turistas, ou gringos, como nos chamam
os locais. Muitos estão só de visita mas enamoram-se de tal forma da
cidade que acabam por ficar para sempre.
Cuenca estava assinalada no nosso mapa de viagem como um local para
recuperar forcas, esperar os meus cartões de multibanco e para
planearmos as próximas pedaladas rumo ao Peru. Mas as minhas três
semanas em Cuenca transformaram-se em dias que também eu me envolvi
com a cidade e as suas gentes de tal forma que quando foi tempo de
partir senti um fio invisível a prender-me aquela terra de rios entrecruzantes.
A encomenda nunca chegou. E o Nuno que havia partido rumo a selva uma
semana depois de termos chegado a Cuenca, esperava-me há já uma semana
em Loja a cerca de 200 kilometros a sul.
A vida e surpreendente quando deixamos que as coisas aconteçam: nos
primeiros dias que estive em em Cuenca sozinha sentia-me aborrecida,
pensado no que iria fazer com todo aquele tempo de espera, e um dia
deixei a porta do meu quarto solarengo no hostal onde estava hospedada
aberta e esse acto, ainda que simbólico, iniciou a entrada de pessoas
muito interessantes na minha vida. Essa tarde passei-a a comer
cerejas com o meu vizinho do quarto do lado, Tomoki, um excêntrico
Japonês, que partilhou as suas aventuras como mochileiro na América
Latina, e com o qual sai essa noite para dançar num POP vazio, onde os
três (O Kaido, um Esloveno também hospedado no hostal, que se juntou a
nos) passamos aquela que foi a primeira de muitas noites doidas ao som
das batidas fortes e contagiantes. Quando se viaja tem-se a sensação
de que cada momento e irrepetivel e único, as inibicoes não fazem
sentido porque não tens nada a perder. Os três preenchemos o espaço vazio do
POP dançando, saltando, os sorrisos desenhavam-se com facilidade,
sabíamos que cada um seguiria o seu rumo nos dias seguintes, Tomoki
partiria para o Peru e Kaido iria para a costa do Equador, a
brevidade daquele encontro tornao-o ainda mais intenso.

Tal como as pecas de domino que coloco em linha, serpenteantes umas
atrás das outras, para observar o efeito causado pelo desencadear de
uma acção - o deixar cair a primeira peca - também o facto de ter
deixado que Cuenca se desvendasse, deixando entrar estranhos na minha
vida, desencadeou um serie de acções que me permitiram conhecer não só
outros viajantes, mas sobretudo as gentes que de uma forma ou de outra
povoam Cuenca e a fazem ser uma cidade com tanta riqueza humana!

As mãos de Cuenca
Quando vi aquelas botas pequeninas de cabedal no meio da
desorganização daquela oficina de sapateiro, senti uma vontade
irresistível de saber a historia por detrás das mãos que haviam
moldado aqueles dois pedaços de couro em duas pecas de calcado que me
faziam lembrar tempos passados, tempos onde as coisas se mandavam
fazer, o tempo em que a vida dos objectos se estendia para la da
primeira falha de uso.
Voltei ao sapateiro no dia seguinte com o único pretexto de conhecer
as mãos que trabalhavam os sapatos gastos de Cuenca.Em Cuenca os
objectos tem uma vida prolongada porque a cidade ainda vive da
ressurreição das coisas mais do que do consumo guloso que se vive no
mundo ocidental, e esse processo preserva as centenas de oficinas que
reparam e criam. Um velho casaco de cabedal pode ser facilmente
recuperado, os vestidos podem ser feitos a medida, um enxoval inteiro
pode ser bordado por mãos hábeis, uma viola pode ser feita a medida
dos desejos do musico, um chapéu pode moldar-se da forma mais
tradicional ou mais excêntrica. E um prazer inventar coisas para
remendar e vê-las ganharem nova vida através das mãos hábeis.
O Sr. Luís David Billa tem passado os dois últimos anos da sua vida
numa sala escura e desarrumada, com uma prateleira cheia de sapatos
por arranjar entre outros já arranjados. Aquela sala abre-se para a
rua e os sons entram ruidosos dos carros, dos tacões dos sapatos e das
vozes dos transeuntes. As vezes entram também clientes ou um ou outro
vizinho que ali troca os bons dias e segue caminho. O Sr. Luís
aprendeu a fazer e remendar sapatos quando tinha 10 anos, mas tentou a
sua sorte noutros ofícios na esperança de fazer mais dinheiro. Não
teve sorte. Trabalhou como pedreiro mas caiu de um andaime e partiu a
bacia. Tentou fazer vida nos canaviais de cana do açúcar, mas
cortava-se frequentemente com a manchete e desistiu. Casou, teve dois
filhos e divorciou-se. Só um dos filhos e vivo. Não mantêm contacto
com a sua família e vive sozinho. A sua vida e triste. A sua vida e
escura. Ali sentada a conversar ao seu lado comecei a perceber a
dificuldade que tinha para arranjar a sola das sapatilhas que tinha
nas mãos. Tem cataratas e as suas pequenas economias serão utilizadas
na esperança de que uma operação lhe traga mais luz a vida, pelo menos
a luz que lhe permita ver melhor para realizar o trabalho que lhe da
sustento. E luz tinha também o seu sorriso e a felicidade de ter ali
uma estranha que escutasse as suas historias. Mostrou-me os sapatos
típicos que ainda faz, com couro entrançado e as botinhas de cabedal
que me fascinaram. Eram para uma menina com uma deficiência e por isso
tinham que ser feitas a mão, a medida. Mais tarde um dos seus poucos
amigos juntou-se a nos, e ele que vai orientando o Sr Luís nos
trabalhos mais complicados. Depois de 4 horas a conversar, vim-me
embora. Doía-me o peito, porque a solidão e a tristeza
dos outros também a sentimos. Passam tantas pessoas na nossa vida e na
realidade muito pouco da sua vida passa por nos.
Numa outra deambulação peatonal por Cuenca fui encontrar outras mãos,
as mãos de uma senhora pequenina e muito simpática que fazia e bordava
vestidos com os desenhos típicos de Cuenca! A Senhora Beatriz Peralta.
Num edifício Colonial de grandes arcadas o município de Cuenca criou
um espaço onde os artesãos podem ter as suas oficinas por apenas 34
dólares por mês. Uma loja de rua custar-lhe-ia mais de 300 dólares. A
localização central atrai diariamente muitos visitantes e mantém assim
possível a preservação das tradições e artes populares daquela região.
A Senhora Beatriz Peralta e solteira, mas partilha a casa com mais
três mulheres: a irmã e as duas sobrinhas. A irmã e a criadora dos
padrões bordados, inspirados na tradição Cuencana. Aos bordados das
blusa são dados nomes de mulher. Mas são poucos os que sabem apreciar
as qualidades das coisas feitas a mão. O Equador foi invadido por
produtos baratos chineses e aos poucos as pessoas vão consumindo as
modas que uniformizam os gostos a volta do planeta num sopro de
estética globalizada. Um dia não haverá mais quem borde, quem faca
chapéus a mão, os sapatos deitar-se-ao fora como primeiro buraco na
sola.
Interessante foi também descobrir as mãos das novas gerações e através
delas compreender as expectativas de um pais que parece começar a dar
os primeiros passos rumo a um futuro com mais esperança, e talvez com mais
opções.
Cuenca tem meio milhão de habitantes, mas passadas três semanas já se
sente o ar de familiaridade das pequenas aldeias. Esboçam-se "buenos
dias" as caras mais familiares, já se regularizam os hábitos e se vai
ao mesmo restaurante comer, a senhora da hostal fica preocupada se
chegas mais tarde. Aos poucos os estranhos passam a ser teus
conhecidos. Todos me vão perguntando pela encomenda e dizendo que
ainda bem que não chegou porque assim fico mais tempo em Cuenca. Eu
comecei a sentir o mesmo.
E na minha busca pelas mãos de Cuenca conheci também as mãos de
Felipe, empregado do Internet café, recem tornado DJ do POP, estudante
de engenharia automóvel. A sua vida e vivida intensamente sem dias de
descanso entre o Internet café, as suas sessões de musica as quintas,
sextas e sábados, os seus estudos. São 22 anos cheios de esperança,
cheios de sonhos, de alegria de musica. A sua latinidade e
irrepreensível na forma como galanteia o sexo oposto. Também um dia
viajara pela Europa quando acabar o seu curso, ou pelo menos esses são
os seus sonhos.

O Rafael, estudante de arte. Falou-me do seu projecto de fim de curso
onde pretende recuperar os corpos dos cadáveres que não são reclamados
na morgue para procurar as suas historias e tatua-las nos seus corpos
sem vida, assim pretende dar voz a uma vida que passaria de outra
forma ao esquecimento, como se na realidade esse ser nunca tivesse
existido. Através destas vozes silenciosas pretende mostrar o quanto
ignoramos aqueles que nos rodeiam, sobretudo os que estão a margem.
Com a morte as historias dos que já não estão perdem-se, sobretudo se
essas mesmas historias nunca foram conhecidas em vida. E um projecto
incomodo porque levanta questões tabu: a morte, a marginalidade, o
corpo, mas suponho que uma vez que a arte abandonou os seus limites
para agradar aos cânones de estética, questionar as coisas que nos
rodeiam e apresenta-las de forma chocante, será porventura a forma
mais eficaz de levantar questões e gerar debate numa sociedade que
parece cada vez mais indiferente a miséria do próximo mas mais
sedenta de um imaginário sensacionalista. Aguardamos os resultados.

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Ficar ou partir
A encomenda não chegava,o Nuno já me esperava em Loja há quase uma semana,
tinha que decidir: avançar para Sul e continuar a minha aventura de
bicicleta ou ficar em Cuenca e abraçar um novo projecto? Decidi ir
rumo ao sul o chamamento foi mais forte.Não me despedi de muitos dos
amigos que fiz porque detesto despedidas, e porque espero com uma
forca muito grande um dia voltar a Cuenca.
Nos dias seguintes voltei a pedalar as montanhas andinas,mas desta vez
com mais sol. As minhas aventuras rumo ao Peru seguir-se-ao em breve!
PS - Desculpem a falta de fotografias, as que estao nesta cronica foram as que consegui recuperar
de amigos, as minhas fotos ficaram perdidas num triste evento onde perdi tambem a minha camara.